A psicoterapia baseada na PHC ainda é pouco conhecida quando comparada com abordagens clássicas — como TCC e psicanálise. Com isso, é comum que as pessoas se perguntem: quem é a psicóloga clínica histórico-cultural?

O que será que nos diferencia como profissionais atuando com essa base teórica? Confira alguns dos principais pontos que caracterizam uma psicóloga que atende na clínica a partir da teoria de Vigotski!

Entender que o desenvolvimento é social

Um dos principais objetos de estudo da psicologia histórico-cultural é o desenvolvimento humano. E as pesquisas de Vigotski e outros psicólogos soviéticos evidenciaram que esse desenvolvimento é sempre social.

Diferentemente dos outros animais, o ser humano deixa de ser guiado pelas leis biológicas e passa a obedecer a leis históricas e culturais. Com isso, a constituição psíquica de uma pessoa tem sempre fruto na cultura.

Vigotski apresenta a lei geral do desenvolvimento: toda função psicológica superior existe primeiro entre pessoas para depois ser internalizada. E você pode pensar: as teorias sobre desenvolvimento só são importantes em áreas como a psicologia educacional?

De forma alguma! Entender o desenvolvimento humano também é indispensável para a clínica. Afinal, precisamos desse conhecimento para compreender a história de vida da pessoa em relação com o contexto social no qual ela está inserida.

Saber que nenhum processo é totalmente individual

Quando falamos sobre o papel do “social” na teoria histórico-cultural não estamos nos referindo ao conceito de coletivo de pessoas. O coletivo é sim expressão do social, mas não é a única.

O social se expressa também na individualidade. Vigotski nos fala que, mesmo quando uma pessoa está sozinha com as suas emoções, a história das relações sociais está presente.

Isso porque a personalidade se constitui na cultura. Logo, o que conhecemos sobre uma pessoa singular é construído no seu contexto social, cultural e histórico. Se pensamos a pessoa fora da realidade concreta, não estamos nos pautando na PHC.

Ter uma visão dialética

Vigotski discutiu a “crise da psicologia”, chamando atenção para a fragmentação da ciência em teorias muito diferentes. Cada uma delas tinha objetos e métodos distintos, de forma que não era possível conversar entre si.

Para o autor, o caminho para a superação disso passava pelo materialismo histórico-dialético. A partir dos escritos de Marx, Vigotski se interessou por construir uma Psicologia Geral e escrever “O Capital” da psicologia.

Essa psicologia proposta por ele é dialética — ou seja, busca entender os fenômenos a partir da totalidade, formada por elementos contraditórios. O que isso significa para a clínica histórico-cultural?

A base histórico-cultural traz para a clínica a possibilidade de estudar o ser humano em sua totalidade. Por exemplo, integrando cognição e afeto, individual e social, objetividade e subjetividade, corpo e mente, biologia e personalidade.

Não negar o biológico, mas não se perder nele

Um dos aspectos da crise da psicologia denunciados por Vigotski era a oposição entre uma visão materialista mecânica (que focava na fisiologia) e uma perspectiva idealista (que negava o orgânico e apresentava explicações espiritualistas).

A partir dos estudos do autor e de outros psicólogos soviéticos, nós podemos construir uma clínica histórico-cultural que integra o biológico e o subjetivo. Ou seja, entendemos que o ser humano é ao mesmo tempo corpo e personalidade.

Não negar a base biológica é imprescindível para compreender o ser humano. Afinal, o psiquismo se materializa nos processos cerebrais, por exemplo. E a personalidade existe em um corpo físico que é significado pela pessoa.

Ao mesmo tempo, a biologia na PHC não ganha o status de centro dos processos humanos. Ao contrário, entendemos que a cultura modifica, inclusive, a relação do homem com seu próprio corpo orgânico.

Logo, as explicações sobre saúde mental e adoecimento, por exemplo, não podem ser encontradas apenas (ou principalmente) na genética. Sua gênese deve ser buscadas nas relações sociais vividas pelas pessoas.

Conhecer a gênese social do processo saúde-doença

Ser uma psicóloga clínica histórico-cultural também significa defender que os processos de sofrimento e adoecimento psíquico têm gênese social. Ou seja, são as limitações impostas pela cultura que produzem obstáculos à saúde dos sujeitos.

Como você viu até aqui, nossas vivências são forjadas na história e na cultura. Assim, é também em dado tempo histórico e em dada cultura que são produzidos processos de adoecimento. 

Nesse sentido, é impossível não avaliar na clínica como o capitalismo afeta a saúde mental. Nele, o trabalho humano vira moeda de troca, o que pode gerar diversas experiências de alienação causar sofrimento.

Quando paramos, por exemplo, para refletir sobre a saúde mental no Brasil, é compreensível o aumento de casos de pessoas com transtornos ansiosos e transtornos de humor. Afinal, saúde e doença se expressam nas relações concretas nas quais estamos e pelas quais nós somos atravessados.⁣

Saber que a saúde mental não se resume à clínica

Apesar de estarmos falando de psicologia clínica histórico-cultural, é fundamental sabermos que a saúde mental não existe apenas na clínica. Muito menos somente na clínica particular privada. 

Afinal, os processos humanos são muito mais complexos e envolvem diversos outros cenários. Individualizar o cuidado de forma superficial nos faria perder de vista a base materialista histórica-dialética de Vigotski. 

O modelo liberal e biomédico muitas vezes apresenta a psicoterapia como solução individual para questões sociais amplas. E muitas abordagens da psicologia tem respondido a isso, conformando-se com o que se espera da ciência burguesa.

No entanto, a PHC na clínica é uma proposta contra hegemônica que precisa, necessariamente, ser crítica a esse mercado psicológico. Sabemos que, assim como o adoecimento tem gênese social, os processos de promoção de saúde também precisam considerar essa gênese.

Conclusão

Agora você sabe o que significa ser uma psicóloga clínica histórico-cultural. Como vimos, existem diversos elementos que caracterizam nossa prática e podem diferenciar a PHC em relação a outras teorias psicológicas. 

Abordamos neste conteúdo alguns dos principais aspectos sobre a psicóloga histórico-cultural. Mas é claro que existem muitos outros elementos que precisam ser pensados e discutidos no nosso campo.

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