Na Psicologia Histórico-Cultural, entendemos que o modo de produção da sociedade gera determinados padrões de saúde ou sofrimento psíquico. Sentimentos como o de esgotamento, por exemplo, são atravessados pelas relações sociais no capitalismo.

Quer entender melhor como é a visão da Psicologia Histórico-Cultural sobre a saúde mental? Continue a leitura!

“Quem me dera não sentir mais medo”

Você já parou para ouvir com atenção a letra da música “Quem me dera (Dizem)”, de Marisa Monte?

“O mundo está bem melhor do que há cem anos atrás, dizem (…). Quem me dera não sentir mais medo, quem me dera não me perturbar, quem me dera não sentir mais medo algum”.

Ela sintetiza com delicadeza uma contradição que atravessa a vida de milhares de pessoas. Enquanto ouvimos que a sociedade evoluiu e que a tecnologia nos trouxe facilidades, a sensação de insegurança, medo e esgotamento psíquico só aumenta.

Será que a ansiedade, o cansaço extremo e a tristeza profunda são apenas “falhas individuais” ou desequilíbrios do cérebro? Ou o sofrimento e o adoecimento psíquico são produzidos pelas condições materiais e sociais de vida da humanidade?

Vamos entender como o capitalismo influencia nossa conduta, nossa forma de pensar, se relacionar e inclusive de significar a emoções, e de que forma a Psicologia Histórico-Cultural (PHC) nos ajuda a compreender a saúde mental sem individualizar as dores.

“Tornamo-nos nós mesmos através dos outros”: o psiquismo é social

Para começar essa conversa, vale resgatar uma das premissas fundamentais de Lev Vigotski: “nós nos tornamos nós mesmos através dos outros”. Em outras palavras, a nossa constituição humana é essencialmente social.

Não nascemos com uma personalidade “pronta” e nem nos desenvolvemos no vácuo. Nós nos formamos enquanto seres humanos ao sermos inseridos em uma complexa rede de relações sociais.

A nossa personalidade, portanto, pode ser compreendida como um conjunto de relações sociais encarnadas no sujeito. Claro que isso não significa um determinismo mecânico — de que tudo o que está fora simplesmente “copia e cola” no nosso interior.

Nós apreendemos e significamos as relações de formas singulares. No entanto, o mundo sempre nos chega pelo viés do outro: as pessoas com quem convivemos nos aproximam de objetos, conceitos, valores e práticas, atribuindo significados à realidade.

Se a constituição da mente, da conduta e das emoções segue esse caminho, com a saúde e o adoecimento mental não seria diferente, certo? O sofrimento psíquico é produzido nas e a partir das relações sociais.

E onde entra o capitalismo nisso?

O capitalismo não é apenas um sistema econômico ou financeiro. Ele é um modo de organização da vida que regula costumes, comportamentos, desejos e afetos. Ele determina o que valorizamos, quais são nossas prioridades e que caminhos devemos seguir para sermos considerados “bem-sucedidos”.

Guiado por uma lógica produtivista, individualista e altamente competitiva, o capitalismo alimenta uma “cultura da performance e do desempenho”. A máxima é a de que devemos estar constantemente buscando a nossa “melhor versão”.

Isso significa produzir mais, dormir menos e se destacar a qualquer custo. Nessa engrenagem, o valor de um ser humano passa a ser medido quase exclusivamente pelo que ele consegue “entregar”.

O resultado disso na vida cotidiana? Exaustão, sobrecarga, frustração, estresse e um esgotamento que atinge todas as instâncias do psiquismo. Isso tudo vai vulnerabilizando o indivíduo até que ele sucumba, adoeça.

A sociedade do desempenho se converte rapidamente em uma “sociedade do cansaço e do adoecimento”. E vale refletir: a quem interessa uma população exausta e adoecida?

Para quem detém o poder e os meios de produção, uma sociedade cansada e adoecida é vantajosa. Afinal, assim a classe trabalhadora reduz suas forças para questionar a realidade, demandar direitos e exigir transformações sociais profundas.

Os sintomas são contradição do próprio sistema

Apesar de doloroso, o sofrimento psíquico traz alertas importantes. Os sintomas característicos dos quadros de adoecimento são a demonstração das contradições do próprio sistema capitalista, e não uma “falha interna” do sujeito.

Pensemos no exemplo da depressão: a apatia, a falta de energia para as tarefas diárias, a lentificação do pensamento e a tristeza profunda subvertem diretamente a lógica da produtividade e da agilidade exigida pelo mercado.

O capitalismo exige corpos acelerados e funcionais 24 horas por dia. Ao mesmo tempo, cria condições de vida tão desgastantes que inviabilizam essa mesma funcionalidade.

O sistema acaba produzindo, assim, aquilo que paralisa o seu próprio funcionamento. O sintoma de depressão pode surgir como uma denúncia do corpo e da mente contra um modo de vida insustentável.

Como a Psicologia Histórico-Cultural olha para a saúde mental?

A Psicologia Histórico-Cultural coloca a compreensão histórica e social dos fenômenos humanos no centro da sua análise. Por isso, a clínica e os estudos dessa abordagem recusam o modelo biomédico tradicional.

Não podemos reduzir o sofrimento a um rótulo estático, um diagnóstico abstrato ou uma falha meramente biológica. Para a PHC, as manifestações de sofrimento psíquico expressam um desenvolvimento dificultado pelas mediações e relações sociais.

Quando as condições materiais de vida, precarizadas pela ideologia capitalista, impedem o acesso a relações humanizadoras, a saúde psíquica fica gravemente comprometida.

Ao olhar para o paciente consideramos a sua Situação Social de Desenvolvimento (SSD). Ou seja, a relação singular e única que cada pessoa estabelece com o seu meio histórico e social.

Com isso, compreendemos que a dor daquele indivíduo não pertence só a ele. Ela é o reflexo de como as exigências, violências e contradições da sociedade ecoam em sua história de vida.

Promover saúde mental a partir da PHC envolve, portanto, desmedicalizar a vida, desnaturalizar o sofrimento e construir caminhos coletivos e conscientes de mediação. Nosso objetivo é promover autonomia, fortalecer os laços sociais e transformar a realidade.

Conclusão

Sentir medo, ansiedade ou esgotamento em um mundo que nos exige constante superação e nos priva de garantias básicas não é um sinal de fraqueza individual.

Essa é uma resposta perfeitamente compreensível a condições concretas de vida que se apresentam na realidade objetiva. Reconhecer que o nosso psiquismo é social nos tira do isolamento da culpa e nos abre portas para pensar o cuidado de forma crítica, ética e acolhedora.

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