Uma das dúvidas que mais confunde quem se aproxima da clínica materialista histórico dialética é o nome da teoria de Vigotski. Afinal, ela é chamada de psicologia histórico-cultural ou psicologia sócio-histórica — ou não há diferença entre os termos?
Se você tem essa dúvida, fique tranquila. Pode ser bem complexo diferenciar as duas perspectivas, mas vamos ajudar. Neste post você vai entender quais são as diferenças entre psicologia histórico-cultural e psicologia sócio-histórica.
Vamos lá?
Por que é comum confundir psicologia histórico-cultural e psicologia sócio-histórica?
Em primeiro lugar, precisamos entender por qual motivo os dois termos são comumente confundidos na psicologia. Afinal, nenhum movimento acontece por acaso, certo? Sempre há uma base histórica e social.
Nesse caso, identificamos dois motivos principais para que a psicologia histórico-cultural (PHC) e a psicologia sócio-histórica (PSH) sejam tão confundidas. Confira!
Os termos foram historicamente usados como sinônimos no Brasil
Se atualmente você ainda vê a PHC e a PSH sendo confundidas, em grande parte é porque diversos autores e publicações já trataram os dois termos como sinônimos em artigos, trabalhos acadêmicos e livros brasileiros.
Embora não seja tão comum hoje em dia, quando começamos a estudar (por volta de 2012) muitos textos que lemos chamavam a teoria de Vigotski de sócio-histórica. Isso foi muito presente em publicações das décadas de 1990 e 2000.
Em um texto de Angel Pino, publicado em 1990, por exemplo, o autor fala o seguinte:
“As origens da corrente sócio-histórica estão associadas fundamentalmente aos nomes de L. S. Vygostsky (1896-1934), A. N. Leontiev (1903-1977) e A. R. Luria (1902-1977), os quais integram trabalhos e interesses de áreas disciplinares diferentes como a Lingüística, a Psicologia, a Pedagogia e a Neurologia” (p. 62)
Inclusive, algumas obras que começaram a falar de como a perspectiva de Vigotski poderia ser usada na clínica a chamam de psicologia sócio-histórica. Embora, como veremos, esse não é o termo mais utilizado para se referir realmente à psicologia do autor soviético.
PSH e PHC são teorias próximas
Outro fator que explica a confusão entre os termos “psicologia histórico-cultural” e “psicologia sócio-histórica” quando falamos da clínica baseada em Vigotski é o fato de que essas duas teorias não são opostas e nem distantes.
Na verdade, uma é base da outra. Como você vai ver daqui a pouco, a psicologia sócio-histórica foi desenvolvida a partir dos estudos que autoras brasileiras fizeram da psicologia histórico cultural de Vigotski.
Isso foi explicado pelas próprias autoras no clássico livro “Psicologia sócio-histórica: uma Perspectiva Crítica em Psicologia”:
“A Psicologia Sócio-Histórica, que toma como base a Psicologia Histórico-Cultural de Vigotski (1896-1934), apresenta-se desde seus primórdios como uma possibilidade de superação dessas visões dicotômicas. O discurso de Vigotski, no II Congresso Pan-Russo de Psiconeurologia, em 1924, sobre o método de investigação reflexológica e psicológica, demonstra-o com clareza, ao fazer a crítica a posições que foram consideradas reducionistas e ao incentivar a produção de uma Psicologia dialética. A Psicologia Sócio-Histórica carrega consigo a possibilidade de crítica. Não apenas por uma intencionalidade de quem a produz, mas por seus fundamentos epistemológicos e teóricos.”
Afinal, existem diferenças entre psicologia histórico-cultural e psicologia sócio-histórica?
Apesar das proximidades, psicologia histórico-cultural e psicologia sócio-histórica não se tratam exatamente da mesma teoria. Por isso, atualmente os dois termos não são usados necessariamente como sinônimos.
Mas as diferenças também podem ser confusas, sabia? Isso porque tanto a PHC quanto a PSH são teorias diversas, construídas por diferentes pessoas. A depender de quem estamos estudando, elas podem parecer mais próximas ou mais distantes.
O que podemos apontar como um consenso mais claro é que o termo psicologia histórico-cultural é o mais utilizado para se referir especificamente à teoria construída por Vigotski e seus continuadores na psicologia soviética.
Ainda assim, é importante frisar que não temos obras do próprio autor nomeando a teoria dessa forma. Na verdade, Vigotski não deu um nome exato para sua construção teórica. Mas muitos continuadores e comentadores a chamam de PHC.
E a psicologia sócio histórica? Nesse caso temos mais elementos para entender a origem do nome. Esse é o termo utilizado para se referir a um campo da psicologia social brasileira, desenvolvida especialmente pelo grupo das professoras Silva Lane e da Ana Bock.
Isso está dito explicitamente naquele livro clássico da psicologia sócio-histórica, que já citamos aqui. Veja mais uma citação das autoras:
“Essas preocupações e buscas nos aproximaram da Psicologia Social e da professora Silvia Lane. A professora Silvia Lane entra, então, em nossas vidas, nos ajudando a encontrar o caminho que poderia nos aproximar de uma Psicologia que falasse da vida vivida. Uma Psicologia que pudesse ser desveladora das condições de vida em nosso país, denunciando-as como fonte de sofrimento psicológico. Buscamos, então, novas referências metodológicas, com o materialismo histórico e dialético e referências teóricas que fundamentassem a crítica à psicologia e a elaboração de algo novo — Leontiev, Vigotski, Politzer, Luria e outros.”.
A psicologia sócio-histórica pode ser usada na clínica?
Você acabou de saber mais sobre a origem da PHC e da PSH e viu que o grupo fundador da psicologia sócio-histórica partiu do marxismo e dos estudos de Vigotski para desenvolver uma psicologia social brasileira crítica.
Agora ficou mais fácil entender que elas são teorias diferentes, mas próximas e até complementares, certo? Podemos abordar então outra dúvida comum: entender as diferenças entre PHC e PSH significa dizer que não existe clínica sócio-histórica?
Esse parece ser um campo em disputa no Brasil. Por exemplo, existem grupos que afirmam que a psicologia sócio-histórica, por não ser exatamente a teoria de Vigotski, não tem conteúdo para basear a prática clínica.
Contudo, essa não é uma afirmação com a qual o Lev concorde. Na verdade, há diversos grupos no Brasil que estudam a clínica sócio-histórica — e você pode encontrar publicações variadas que exploram as bases e práticas nessa área.
Inclusive, o Instituto de Psicologia Sócio-Histórica, um grupo de Natal-RN, tem um post que explica a escolha por usar o termo “psicologia sócio-histórica cultural”. Ela traz uma ideia bacana de construção de pontes, que é nossa perspectiva também!
Conclusão
Este é um espaço limitado para responder com profundidade e situar todas as discussões atuais sobre a diferença entre psicologia histórico-cultural e psicologia sócio-histórica na clínica. Mas esperamos ter ajudado a introduzir uma visão crítica sobre o tema.