Se você acompanha os conteúdos do Lev, leu nossos livros ou participou de aulas, talvez já tenha visto a gente falar sobre a ideia de caminhada terapêutica na psicologia clínica histórico-cultural.
Mas o que ela significa? Eu, Aline, uma das fundadoras do Lev, quero te apresentar melhor neste post o que pensei quando comecei a usar a expressão caminhada para refletir sobre a psicoterapia.
Vamos lá?
Caminhada terapêutica é um conceito da psicologia histórico-cultural?
Uma das primeiras coisas que vale a pena evidenciar é que no Lev a gente não vê a caminhada terapêutica propriamente como um conceito, uma categoria de análise ou uma técnica da psicoterapia com base na PHC.
Geralmente, para me referir à caminhada terapêutica eu uso palavras como “o termo”, “a ideia”, “a analogia”, “a metáfora” etc. Ela é uma perspectiva que surgiu no dia a dia da clínica e das supervisões, e não algo com a pretensão de virar um “conceito técnico”.
Minha intenção nunca foi “criar” um conceito novo para me referir a algo que já considero bem expressado a partir de termos como “processo terapêutico” ou “relação terapêutica”. O uso da analogia tem apenas o objetivo de aprofundar reflexões e discutir perspectivas.
Como começamos a falar de caminhada terapêutica?
Acredito que a primeira vez que eu incluí essa analogia em uma publicação oficial foi na primeira edição do nosso livro “Práxis na clínica histórico-cultural: por uma clínica da transformação e do desenvolvimento”, lançado em 2023.
Mas a ideia já vinha de uma construção anterior, feita durante as trocas profissionais nos encontros de supervisão, mais ou menos entre 2021 e 2022. Na época, eu vi no termo “caminhada” uma possibilidade de reflexão diante de um sentimento muito comum na clínica: a ansiedade por dar resultados ao paciente.
Naquele tempo a gente discutia bastante nos grupos sobre o papel da psicóloga e das técnicas na psicoterapia. E muitas participantes compartilhavam a angústia de se perguntar se estavam fazendo intervenções “suficientes” a cada sessão.
Então eu passei a fazer uma comparação bem humorada: defendi que a psicóloga não é uma diva pop e que não precisamos dar um “show” a cada sessão. A intenção com isso era lembrar do caráter processual da psicoterapia.
Isto é, não precisamos esperar (e nos cobrar) que a cada intervenção e a cada encontro o paciente tenha “insights” bombásticos que mudem sua vida. Em um show, o artista só tem aquele dia para deixar uma ótima impressão no público e fazer com que ele saia impactado.
Mas na clínica é bem diferente, pois vamos acompanhar aquela pessoa por semanas, meses e até anos. E a PHC já nos mostra que não é de forma instantânea que o desenvolvimento funciona, certo?
O que significa caminhada terapêutica na psicologia histórico-cultural?
Depois de conhecer um pouco mais sobre esse contexto, você pode entender melhor o que eu quero dizer quando comparo a psicoterapia com uma caminhada. A ideia é chamar atenção para a dimensão processual e a impossibilidade de estarmos totalmente no controle da terapia.
Uma ótima professora com quem fiz cursos, Ticiana Paiva, comparava a psicoterapia com um passeio de carro em que o paciente está no banco do motorista. Logo, a psicoterapeuta está de carona: não é ela que controla o processo.
Ao usar a analogia de caminhada terapêutica, eu discutia com as profissionais nas supervisões as especificidades da relação entre a psicóloga e o paciente: quando caminhamos juntos, é preciso achar um ritmo confortável para todos os envolvidos.
Como psicólogas, nós geralmente estamos mais “preparadas” para o ritmo intenso da terapia. Por isso que precisamos lembrar de seguir não o nosso ritmo, mas o da pessoa que está ali com a gente.
No exemplo da caminhada, imagine um atleta de corrida e uma pessoa sedentária caminhando juntos. Qual ritmo será preciso seguir? O atleta tem a capacidade de correr mais rápido, mas precisará adotar uma velocidade menor para ficar ao lado da sua acompanhante.
A ideia de caminhada também traz a possibilidade de pensarmos as “ferramentas” que utilizamos na psicologia clínica. Eu falava em supervisão: nosso paciente pode estar evitando entrar em uma caverna escura da vida dele, por exemplo.
Com nosso apoio em terapia, é como se oferecêssemos instrumentos como uma lanterna, para facilitar o desafio. Isso é possível a partir dos conhecimentos e técnicas que aprendemos ao atuar na psicologia clínica.
Há outras formas de entender a caminhada terapêutica?
Estou apresentando até aqui a história e o contexto em que fui pensando e discutindo a analogia de caminhada terapêutica com outras psicólogas da PHC. Você pode ver as construções teóricas que fiz a partir dela na nossa segunda edição do livro Práxis.
Mas talvez você encontre o termo também em outros materiais da psicologia histórico-cultural. Isso porque ex colegas com quem trabalhei no passado passaram a usar a ideia e até apresentá-la como construção própria.
Não faz sentido para mim disputar a “propriedade” de uma simples analogia que surgiu sem grandes pretensões científicas ou técnicas. Mas é válido evidenciar que a apropriação feita por outras pessoas apresenta a ideia de caminhada terapêutica de forma diferente da que contextualizei aqui.
Pelo que vejo, os sentidos chegam a ser opostos. Como te contei, para mim, a ideia de caminhada terapêutica surgiu para fazer contraponto ao “show da diva pop” e lembrar da nossa impossibilidade de controlar o processo terapêutico.
Já nessa outra perspectiva, o termo parece ser usado para fazer alusão ao planejamento do processo terapêutico pela psicóloga e até mesmo para se referir a possíveis “fases” da terapia histórico-cultural.
Estudando a PHC, sabemos que uma mesma palavra pode ter diversos sentidos para pessoas diferentes. E essa forma de ver a psicoterapia pode ser pertinente para os autores e para muitos leitores. Contudo, não é a nossa perspectiva no Lev.
Conclusão
O uso de analogias e metáforas pode ser muito interessante em aulas, supervisões e também na clínica. Neste conteúdo você soube em mais detalhes como eu pensei a caminhada terapêutica na psicologia histórico-cultural e qual sentido dou para o termo.
E você? Já tinha se deparado com essa expressão? Como você entende o processo terapêutico na psicologia histórico-cultural? Deixe seu comentário e vamos conversar!