Uma das principais dúvidas de novas psicólogas histórico-culturais é se a clínica baseada nessa teoria tem suas próprias técnicas e procedimentos clínicos. De fato, essa é uma questão importante para quem quer iniciar seu trabalho como psicoterapeuta.

Mas, para responder a esse questionamento sem cair em um tecnicismo superficial, acreditamos que vale a pena voltar à base epistemológica da teoria. Aí sim conseguiremos entender se existem técnicas próprias na PHC e quais são elas.

Vamos lá?

Vigotski desenvolveu uma clínica histórico-cultural?

Vigotski é reconhecido como o principal desenvolvedor do que chamamos de Psicologia Histórico-Cultural no Brasil. Junto de um coletivo de psicólogos e pesquisadores soviéticos, ele realizou uma série de pesquisas e publicou obras que são fundamentais para nós.

Mas será que Vigotski desenvolveu exatamente uma clínica, ou mais especificamente, uma psicoterapia? Na verdade, precisamos compreender que o contexto social e histórico vivido por ele quando realizou seus estudos foi bem diferente do que temos hoje quando pensamos no nosso trabalho como psicoterapeutas no Brasil.

Nesse sentido, uma das coisas que deve ser considerada é que a Psicologia Histórico-Cultural não tem seu surgimento especificamente ligado à psicoterapia. Na verdade, o objetivo de Vigotski era construir uma Psicologia Geral.

Esse foi o seu projeto para apresentar um contraponto materialista histórico-dialético à fragmentação que ele entendia como crise da ciência psicológica em sua época. Então a PHC não nasceu para ser mais uma “abordagem” de psicoterapia. 

Ela nem mesmo nasceu com foco na clínica ou na saúde mental. Mas, como Psicologia Geral, essa teoria pode servir de base para disciplinas específicas — como a psicologia do trabalho, a patopsicologia, a pedologia, a defectologia e, por que não, a clínica.

Inclusive, os estudos sobre o desenvolvimento infantil feitos por Vigotski se encaixavam na chamada clínica pedológica da época. O conceito não é o mesmo que entendemos por clínica ou psicoterapia hoje, mas suas investigações e práticas podem embasar as nossas construções clínicas.

Como se dá a psicoterapia histórico-cultural?

Acabamos de ver que a Psicologia Geral defendida por Vigotski a partir do materialismo histórico-dialético pode abrir diversas possibilidades de atuação e estudos. Um desses campos em pleno desenvolvimento no Brasil é a psicoterapia com base histórico-cultural.

O desenvolvimento da clínica faz muito sentido no nosso contexto social e histórico. Afinal, o Brasil, como país capitalista no século XXI, vive especificidades como a intensificação do sofrimento psíquico e a medicalização e individualização desse sofrimento. 

A psicoterapia é uma das soluções propostas no capitalismo para a identificação e tratamento do sofrimento ou adoecimento psíquico em um contexto neoliberal. Logo, a clínica é uma área de trabalho em crescimento para profissionais da psicologia.

Falar sobre esse contexto é importante para entendermos que o nosso trabalho como psicólogas clínicas histórico-culturais está também inserido nas contradições do próprio fazer clínico.

Nesse sentido, encontramos no Brasil e no exterior práticas de psicoterapia embasadas em teorias hegemônicas, e que conversam intimamente com o modelo biomédico, assim como encontramos (e construímos) possibilidades contra hegemônicas — como a PHC.

A clínica histórico-cultural surge, então, nesse movimento de pensar o cuidado às pessoas de maneira não individualizada e medicalizante. E nós, psicoterapeutas histórico-culturais, lidamos com os desafios que tal contexto impõe.

O que são as técnicas no contexto da clínica histórico-cultural?

Uma das contradições que marca a clínica no contexto brasileiro é a busca por respostas prontas e “tratamentos” mais curtos e efetivos para o sofrimento psíquico. Nisso, são criados “protocolos”, técnicas e ferramentas que respondam a essa necessidade social.

Contudo, as limitações desse caminho ficam claras, já que na maioria das vezes há um esvaziamento da gênese social do adoecimento. Afinal, a compreensão das determinações sociais do sofrimento é inconciliável com a ideia de tratamento curto ou solução rápida para questões tão amplas e complexas, certo?

Isso nos chama a atenção para o fato de que discutir possíveis técnicas clínicas na PHC requer um compromisso ético e político claro. Precisamos pensar, por exemplo:

No passado, nós aprendemos e participamos de publicações que apresentavam algumas técnicas como próprias da clínica histórico-cultural. Entretanto, nosso entendimento hoje é de que o desenvolvimento desses procedimentos, até onde pudemos avaliar, carecem desse caminho metodológico claro.

Assim, como coletivo de psicólogas histórico-culturais, consideramos que é necessário ter cuidado para que a apresentação de “técnicas” da PHC não seja motivada exatamente pelas contradições postas ao modelo clínico atual no capitalismo — como necessidade de oferecer modelos e protocolos na formação em psicologia.

Afinal, a clínica histórico-cultural tem técnicas próprias?

Já vimos que Vigotski não desenvolveu propriamente técnicas para o atendimento psicoterapêutico. Em especial, porque esse não foi um dos campos de atuação em que ele focou seus estudos. 

Contudo, vimos também os estudos vigotskianos acerca do desenvolvimento do psiquismo e da personalidade oferecem caminhos interessantes para que psicólogos contemporâneos pensem a clínica histórico-cultural, inclusive em seu aspecto técnico. 

O método genético experimental desenvolvido por Vigotski em suas pesquisas, por exemplo, tem sido central para a construção de uma prática crítica e não individualizante em psicoterapia. 

Além disso, outros autores da PHC (como Miasichev) têm contribuições voltadas especificamente para a clínica. Desse modo, há muito o que se construir coletivamente para caracterizar a atuação de psicólogas clínicas histórico-culturais.

Entretanto, mais do que falar em “técnicas” que podem ser aprendidas, levantamos a importância da apropriação teórica da psicologia histórico-cultural e do materialismo histórico-dialético para pensar a clínica.

Com isso, podemos entender melhor, por exemplo, aspectos como a centralidade do diálogo no processo terapêutico. Afinal, a fala promove organização do pensamento e as trocas com a psicóloga podem trazer novas possibilidades de mediação ao psiquismo.

A partir da apropriação teórica entendemos mais profundamente também as diversas possibilidades de uso de instrumentos para mediação na atuação clínica. Estudando Vigotski, sabemos que signos e instrumentos são estímulos auxiliares no autodomínio da conduta.

Assim, no cotidiano de trabalho clínico a psicóloga utiliza seu repertório de conhecimentos e criatividade para fazer novas proposições — e elas não precisam necessariamente serem apresentadas ou vendidas como “técnicas” da psicologia histórico-cultural.

Conclusão

A clínica histórico-cultural não está alheia às contradições do nosso tempo histórico e nem às disputas teóricas e ideológicas. Por isso, centrar-se na importância do compromisso ético e teórico é essencial para compreender a prática e as possíveis técnicas da psicoterapia com base na PHC.

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