Qual o papel da Psicóloga Histórico-Cultural na prática clínica?

 Este conteúdo aborda o papel da psicóloga na prática clínica histórico-cultural. O texto apresenta a postura assumida pela profissional, a escuta e o diálogo estabelecidos ao longo das sessões de psicoterapia. O artigo também discute como compreender a singularidade de cada sujeito e construir objetivos ao longo do atendimento. Por fim, o material apresenta o uso de instrumentos mediadores, a exemplo do baralho das emoções, como possibilidades de intervenção clínica.

Qual é o papel da psicóloga histórico-cultural durante um atendimento? A resposta está no jeito de conduzir o encontro e de tentar entender o que a pessoa traz nas sessões.

Na clínica, teoria e prática andam juntas. Ou seja: é preciso olhar com calma para a situação que chega até a psicóloga, conversar de verdade com quem está ali e escolher o que fazer a partir do que vai aparecendo ao longo da terapia.

Vamos conversar sobre isso? A seguir, entenda mais sobre o papel da psicóloga que escolhe a teoria histórico-cultural!

Postura profissional

Na clínica histórico-cultural, o papel da psicóloga envolve uma postura investigativa. Em vez de tratar sintomas, comportamentos e queixas como algo natural, ela vai atrás da história e das relações que formaram tudo isso.

Isso quer dizer admitir uma coisa simples (e nem sempre confortável): a psicóloga não chega com todas as respostas sobre quem está na frente dela. O entendimento vai se construindo encontro a encontro, conforme coisas novas aparecem.

Por isso não existe roteiro pronto. Cada processo é único. Duas pessoas podem chegar com queixas parecidas e precisar de entendimentos bem diferentes. Afinal, a queixa sozinha não conta de onde ela veio nem o que significa.

Escuta

Na perspectiva histórico-cultural, escutar não é só deixar a pessoa falar.É entender o que ela conta olhando para a história dela, para o contexto e para o sentido que ela dá ao que viveu. Escutar com atenção e empatia está no centro do trabalho. 

É isso que cria o vínculo e também o que permite que a pessoa se escute enquanto fala. Parte do papel da psicóloga é abrir um espaço em que o paciente consiga organizar e desenvolver o pensamento. Às vezes o silêncio faz esse trabalho — ela não precisa preencher cada pausa.

E vale prestar atenção no que a pessoa conta e também no jeito como ela conta. Ao colocar a experiência em palavras, o paciente vai ligando acontecimentos, pensamentos e sentimentos.

Diálogo

A relação terapêutica na abordagem histórico-cultural é compreendida como dialógica e interventiva. Na interação entre psicóloga e paciente, a linguagem ajuda a organizar o pensamento, ampliar a consciência e favorecer novas reflexões sobre a própria situação.

À psicóloga cabe, por exemplo, provocar deslocamentos por meio de perguntas problematizadoras. Os questionamentos ajudam a investigar determinados conteúdos e questionar explicações que já estão muito fixadas, produzindo dúvidas e novos modos de reflexão.

Uma pergunta, nesse contexto, não serve somente para obter informação. Muitas vezes, ela funciona como um instrumento mediador do pensamento, auxiliando o paciente para que ele examine uma situação por uma perspectiva que ainda não havia considerado.

É nesse movimento que o papel da psicóloga histórico-cultural se distancia da oferta de respostas prontas. A gente não sabe o que é melhor para a outra pessoa. O que a intervenção faz é criar condições para ela pensar sobre a própria vida e ter mais domínio sobre as próprias ações.

Compreensão do sujeito

Uma questão central da atuação da psicóloga histórico-cultural é compreender a pessoa sem reduzi-la à queixa apresentada. Para isso, é importante considerar a singularidade da experiência. 

Dois pacientes podem chegar à sua clínica com sintomas muito semelhantes e, mesmo assim, ter histórias, relações e sentidos diferentes.

Por isso a investigação olha para como aquela situação se formou para aquela pessoa. Alguns pontos ajudam a entender melhor:

  • história de vida;
  • atividades realizadas no cotidiano;
  • relações estabelecidas;
  • condições concretas de vida, como trabalho, renda e acesso a direitos; 
  • contextos em que as dificuldades aparecem. 

A psicóloga participa ativamente desse processo de autoconhecimento, em uma relação dialógica com o paciente. Não se trata de ter uma verdade sobre o paciente, mas de construir, com ele, uma compreensão mais aprofundada de sua história, relações e possibilidades.

Assim, a intervenção não fica presa ao que salta aos olhos. Para entender de onde vem uma queixa e o que ela significa, é preciso olhar o caminho que levou até ali.

Construção dos objetivos da psicoterapia

Na clínica histórico-cultural, os objetivos vão ficando mais claros conforme a investigação avança. E é normal que a compreensão da situação mude no meio do caminho, quando a psicóloga tem mais informações sobre a pessoa e o que ela vive.

Nesse sentido, a psicoterapia busca contribuir para que a pessoa supere condições de fragilidade diante do sofrimento. A ideia é que ela enxergue melhor a própria realidade, ganhe autonomia e encontre novos caminhos de ação diante do que vive. 

Ao longo desse processo, a psicóloga também busca fortalecer o protagonismo do paciente, reconhecendo-o como sujeito de sua própria dinâmica de vida. Assim, a psicoterapia não se resume a metas genéricas, como mudar determinados comportamentos ou pensamentos.

Os objetivos precisam estar relacionados às necessidades identificadas naquela trajetória, podendo ser revistos quando novas questões aparecem. No processo, a psicóloga participa ativamente da construção dos objetivos, mas não define unilateralmente o que deve ser alcançado.

Leia: Projeto Terapêutico Singular (PTS): o que é e como construir?

Uso de instrumentos mediadores

Os instrumentos mediadores abrem mais caminhos de intervenção. Mas atenção: eles não são receita que serve para todo atendimento. Cada ferramenta precisa combinar com o que a psicóloga entendeu daquela situação e com as metas construídas na terapia.

Entre as possibilidades estão:

  • recursos artísticos, como músicas;
  • livros;
  • jogos;
  • escrita;
  • linha do tempo;
  • representações de cenários de vida. 

Um exemplo é o baralho das emoções, recurso que o Lev disponibiliza e que pode ser útil nos atendimentos. Ele traz cartas com ilustrações e os significados das emoções, que podem ajudar a pessoa a identificar o que sente.

A partir daí, terapeuta e paciente podem, por exemplo, comparar o significado que a sociedade dá a cada emoção com o sentido que ela mesma dá ao que viveu. Mas vale reforçar: usar ou não o instrumento depende da intenção da psicóloga e do que está sendo trabalhado.

Além dos recursos prontos, a psicóloga pode criar os seus conforme as necessidades do processo. Dá para levar à sessão cartas com ditados populares, por exemplo, e investigar que ideias estão por trás de comportamentos que se repetem no dia a dia do paciente.

A fase do desenvolvimento também pesa na escolha. Na clínica com crianças, brincadeiras e desenhos ocupam mais espaço. Já os adolescentes costumam se interessar por jogos, músicas e textos que têm a ver com o dia a dia deles.

Conclusão

Como você viu, o papel da psicóloga histórico-cultural não depende de um conjunto fechado de procedimentos. Na prática, escuta, diálogo e instrumentos mediadores se articulam de acordo com as necessidades de cada processo terapêutico.

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