Este artigo discute os limites do Setembro Amarelo® na prevenção ao suicídio a partir de pesquisas sobre os indicadores brasileiros e da perspectiva da Psicologia Histórico-Cultural. O texto aborda críticas à concentração das ações em um mês temático e à compreensão predominantemente individual do sofrimento. O conteúdo também apresenta a importância de considerar seus determinantes sociais e de investir em cuidado contínuo, serviços de saúde e formação profissional para lidar com demandas relacionadas ao suicídio.
A campanha Setembro Amarelo® passou a concentrar ações de conscientização sobre o suicídio, com o objetivo de reduzir tabus e estimular a procura por ajuda. Mas ela também recebe muitas críticas e desconfiança de profissionais de saúde e do público.
Será que a campanha com mês temático consegue de fato ajudar a prevenir o suicídio? Esse questionamento é alimentado por dados registrados no país nos últimos anos — que permitem entender mais sobre a relevância ou não dos esforços de conscientização.
Neste conteúdo, confira o que dizem as pesquisas sobre o Setembro Amarelo® e como é possível estruturar melhor a prevenção e conscientização sobre o suicídio!
O que é a campanha Setembro Amarelo®?
O Setembro Amarelo® foi criado em 2013 por Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e é colocado em prática anualmente em parceria com o Conselho Federal de Medicina.
O site da campanha informa que o objetivo é quebrar o tabu e conscientizar acerca do suicídio, pois o acesso à informação e ao tratamento psiquiátrico ajudaria a evitar mortes. Segundo as diretrizes da campanha, qualquer cidadão pode participar dela distribuindo materiais e organizando eventos.
O Setembro Amarelo® de fato previne o suicídio?
A cada ano diversos profissionais de saúde, empresas e cidadãos em geral participam do Setembro Amarelo® seja falando sobre o tema em suas redes sociais, fazendo palestras ou promovendo eventos. Mas como avaliar os resultados da campanha?
Os efeitos do Setembro Amarelo® sobre os indicadores de suicídio no Brasil são alvo de diversas pesquisas promovidas nos últimos anos. Elas buscam entender o impacto da campanha tanto na conscientização a respeito do tema quanto nos números de ocorrências registradas.
Um estudo publicado em 2023 na Revista Multidisciplinar em Saúde analisou os registros brasileiros de suicídios entre 2000 e 2020. A pesquisa identificou um crescimento de 73,7% no número absoluto de mortes autoprovocadas no período.
Ela também mostrou que a tendência de avanço dos registros permaneceu depois que o Setembro Amarelo® teve início. Segundo o levantamento, foram registrados 13.835 óbitos por suicídio em 2020 — 6,5 mortes a cada 100 mil habitantes.
Outra pesquisa, publicada em 2024 no Journal of Affective Disorders, expôs que a taxa de suicídio apresentou crescimento anual de 1,67% entre 2000 e 2015 e de 4,24% entre 2015 e 2019. Será que isso significa que a campanha leva ao aumento do número de casos?
Na verdade, não podemos afirmar isso. O fato de haver uma correlação entre os dados não quer dizer que a campanha está necessariamente causando o aumento do suicídio. Entretanto, os dados trazem um olhar importante e podem indicar limites e fortalecer críticas ao Setembro Amarelo®.
Qual é a visão da PHC sobre o suicídio?
Um olhar histórico-cultural depende sempre de uma visão complexa dos fenômenos. Portanto, para além da campanha Setembro Amarelo®, precisamos buscar entender quais questões podem contribuir para o aumento do autoextermínio no Brasil.
Nós sabemos que o sofrimento psíquico não é individual, mas tem gênese social. O suicídio deve ser compreendido a partir do contexto cultural no qual estamos inseridos. Com isso, a intensificação da opressão no capitalismo não pode deixar de ser considerada.
Nos últimos anos, a população brasileira tem vivido o aumento de padrões de desgaste — como perda de direitos trabalhistas, ampliação da exploração do trabalho e da medicalização social etc. Esses fatores contribuem para gerar em diversas pessoas a perda de sentido da vida.
Inclusive, este é um fator relevante na hora de avaliar os efeitos de campanhas como a do Setembro Amarelo®. Falar mais sobre suicídio não significa dizer com segurança que o tema está sendo tratado com a responsabilidade, o cuidado e a visão crítica necessária.
Na realidade, é muito comum que profissionais de psicologia questionem a perspectiva biomédica adotada no Setembro Amarelo®. De modo geral, a campanha trata o tema de forma individual e foca no tratamento psiquiátrico, não aprofundando em análises sociais mais amplas.
Outra crítica a ser feita é à fragmentação da saúde a partir de meses temáticos. Muitas vezes, essas campanhas podem sobrecarregar o trabalho em órgãos públicos e limitar os profissionais, além de substituir o cuidado contínuo por ações pontuais.
Leia a dissertação Suicídio: uma análise psicossocial a partir do materialismo histórico dialético
O que é necessário para aumentar a prevenção contra o suicídio?
Como você viu, não há segurança para dizer que o Setembro Amarelo® realmente previne o suicídio. Por questões como as discutidas aqui, o Lev não participa ativamente da campanha e prefere não aumentar a quantidade de conteúdos já exaustivamente produzidos nessa época.
Em vez disso, chamamos atenção para iniciativas que, de fato, apontam para resultados positivos na prevenção ao suicídio. Por exemplo, o fortalecimento dos serviços de saúde que amparam a pessoa em sofrimento e oferecem recursos de apoio é essencial.
Também é indispensável que as psicólogas estudem o tema do suicídio profundamente e com responsabilidade para acolher os pacientes da melhor forma. Assim, podemos avaliar o risco e prestar o suporte adequado a quem nos procura.
Para isso, indicamos o curso de qualificação profissional de prevenção ao suicídio da Unasus, que é gratuito. E também temos no Lev uma aula gratuita sobre Atendimento a Demandas de Suicídio para que você possa conhecer a visão da PHC acerca do tema e se sinta mais segura nos atendimentos.
A prevenção ao suicídio requer uma compreensão ampla sobre o sofrimento, considerando que ele está diretamente relacionado ao modo de produção em que vivemos. Essa perspectiva dialoga diretamente com a abordagem defendida pela Psicologia Histórico-Cultural.
Conclusão
Campanhas como a do Setembro Amarelo® podem abrir espaço para a conversa sobre saúde mental e prevenção ao suicídio. Porém, é indispensável pensar em como o tema está sendo tratado e não limitar o cuidado a demandas complexas como essa a um mês do ano.
Se você se interessa por uma abordagem ampla, como a defendida pela Psicologia Histórico-Cultural, conheça a comunidade Lev e acesse materiais, aulas e mais!


